segunda-feira, 28 de maio de 2012

Opus Ex Corpus. Opus Ex Cogitationis

As analogias são de grande utilidade a qualquer um que se prestou a realizar uma explicação e se viu sem colocações suficientemente claras e objetivas. Talvez o seu uso desperte suspeita no ouvinte quanto a clareza e o domínio do assunto por parte do orador, pois este se viu incapaz de transmitir diretamente um pensamento, fazendo uso do pensamento alheio através de um artifício que, geralmente, recorre a memória visual do ouvinte, forçando-o a entender o que foi dito. Por outro lado, o uso pontual e bem trabalhado de uma analogia pode vir a ser o modo mais bem-sucedido de se fixar uma ideia.
Para que se consiga atingir o objetivo em uma analogia deve-se usar elementos que apresentem constância e que estejam disponíveis ao maior número e sortimento de saberes, por isso, é comum o emprego de elementos da natureza...tal como em  provérbios, metáforas e ditos populares de uso comum. Contudo, uma mensagem objetiva pode vir a se apresentar propositadamente em uma forma indireta e subliminar por meio de uma analogia, para que somente uma fração de um público receba com clareza o teor do que foi dito; é o que se vê nas parábolas de Jesus, que ao discursar para uma multidão citou a respeito dos ímpios: 'ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis'; e sobre seus discípulos: ' Mas bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.' (Mateus 13:14, 16)
O tema do presente artigo está ligado a duas analogias presentes no título do post. 
Procurei fazer uma alusão a preocupação quase patológica do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) com a identidade linguística dos maiores tratados da filosofia tradicional, a grande maioria em latim ou grego. Schopenhauer protestava veementemente contra 'uma onda de profanação das obras clássicas' que eram precariamente traduzidas para o alemão, e, como se não bastasse, esses 'escrevinhadores imbecis, com o intuito de dar maior valor a suas próprias obras medíocres as publicam em latim'. E cá estou eu, com um título em latim...
A outra analogia está explicita no próprio significado do título: 
'Obra do corpo, obra do pensamento'.





"Quanto menos inteligente é um homem, menos misteriosa lhe parece a sua própria existência."                                                  
                                                                     Arthur Shopenhauer



O estímulo natural a sobrevivência do corpo promove a existência de um ciclo estável que, em notáveis aspectos, o faz similar ao menos apercebido ciclo do pensamento.
O ato vital de se alimentar é paralelo ao ato de se adquirir conhecimento, seja ele qual for, pois da mesma forma que se admite uma colossal diversidade de alimentos, também é vasto o campo dos saberes humanos. A forma pelo qual o alimento é ingerido ilustra bem a causalidade da natureza, sendo que, ainda na boca o afã de mastigar, triturar e processar a comida para depois empurrá-la garganta abaixo é gratuitamente amenizado pela sensação de prazer oriunda do estímulo do sabor; assemelhando tal evento ao ato de se ler um livro onde o entendimento requer atenção e conhecimentos prévios mas o tema da leitura se mostra instigante e proporciona prazer ao leitor, que prossegue até o fim. Tal mecanismo natural ajuda o corpo a captar o alimento, esse corpo estranho que em breve será assimilado, mas não é o principal responsável pelo sucesso da alimentação. Sem o processo de digestão o organismo não extrai nutrientes do alimento, que é o objetivo do esforço, assim como a obtenção de experiência ou conhecimento sem a reflexão não traz nenhum benefício ao pensamento próprio. A digestão é análoga a reflexão mas difere em um ponto crucial da minha analogia; a primeira é muito mais complexa e fatigante que a mastigação mas ocorre involuntariamente no organismo; a segunda é igualmente extenuante mas só existe se for conscientemente construída, selecionando cada elemento ingerido e dispondo conforme a necessidade do intelecto. Schopenhauer fez a seguinte colocação a respeito da aquisição de conhecimento através da experiência: 'Quando a experiência se vangloria de que somente ela, por meio de suas descobertas, fez progredir o saber humano, é como se a boca quisesse se gabar por sustentar sozinha a existência do corpo.'
A respeito do saber (não do pensar) acrescento, ainda, outros fatores a minha comparação. Um corpo saudável sente fome, se alimenta até a saciedade, digere o alimento e elimina o que não tem para si nenhum proveito. Porém, existem estados anormais de funcionamento do sistema em que o organismo não realiza o processo até o objetivo, gerando corpos subnutridos e impotentes. O mesmo ocorre no intelecto e é ainda mais perceptível ao compará-lo aos distúrbios alimentares como a anorexia nervosa ou a obesidade mórbida. No primeiro o paciente se nega a comer pois se vê muito bem provido e do que se alimenta, por mais pequena que for a porção, é para o seu estado psicológico e para sua auto-imagem um excesso, já na segunda, o corpo se alimenta compulsivamente mas não realiza o processo como um todo, acumulando matéria que, ao invés de ser convertida em nutrientes acaba por ser prejudicial ao próprio funcionamento do organismo. Aquele que se vê como proprietário de muitos saberes e que, a qualquer novidade que lhe for apresentada por alguém que julgue menos capaz, rapidamente virar o rosto rejeitando-o como conhecimento inútil, possui um distúrbio semelhante ao do anoréxico que, ao se olhar no espelho não vê necessidade de comer mais do que já come, mesmo que os seus ossos estejam visíveis, assim como outros sinais de subnutrição. E, também, aquele que avidamente extrai conhecimento de várias fontes, se gaba de ler compulsivamente, podendo citar todos os autores e, por vezes, reproduz histórias e pensamentos que nunca teve, mas foram aprendidos e copiados, pois ele próprio não conseguiu tempo em meio ao seu vaidoso ofício de conhecer todas as letras impressas, se faz portador de um comportamento análogo ao obeso mórbido, que procura a saciedade, mas não a encontra e o acúmulo do que ingere lhe causa terrível desconforto. Em todos estes casos, o efeito de tais distúrbios é a inércia, a imobilidade... no intelecto é a impossibilidade de se extrair o fruto do pensamento próprio, um pela falta de matéria prima, que é o conhecimento, e outro pelo excesso da mesma, sobrecarregando e ocupando todo o esforço e o objetivo.
Alguns filósofos contemporâneos acreditam que no atual modelo de sociedade a reflexão deixou de existir, dada a maneira como o consumo, o trabalho e até mesmo a maioria das artes requerem uma reação quase instantânea do indivíduo. Ausência de reflexão acarreta em ausência de pensamento próprio e, se assim for, o gênio será algo muito mais raro do que se faz ouvir, e o vulgo estará no ápice da sua produtividade.















domingo, 29 de janeiro de 2012

O que há para se dizer sobre o tempo

 O mais emblemático dogma universal a respeito do tempo é a impossibilidade de o retermos. O que é foi e não o será novamente. Tal constatação não é assim tão óbvia, diria o eclesiastes… mas é válida. Para o tempo cronológico pouco importa os eventos passados sob o seu sustento, ele manterá sua constância. Por outro lado, para cada evento existirá uma figura distorcida do tempo soberano, relativa ao próprio evento e suas experiências. Para alguém que fique parado olhando fixamente o decorrer dos segundos de um relógio, o tempo passará muito mais lentamente do que para uma outra pessoa, ocupada com muitos afazeres. Isso é óbvio, Einstein diria, pois o tempo é relativo. Tudo é relativo. Mas nesse caso eu estaria considerando a figura do tempo cronológico distorcido pelos eventos, e não o próprio; ou seriam ambos a mesma idéia?
Se tomarmos a relatividade do tempo como base para toda interpretação, o tempo de uma vida não seria corretamente descrito se o basearmos na concepção linear e constante do tempo cronológico. Pois houveram eventos que o distorceram. Quantos anos de fato foram vividos? E em quantos outros o tempo não foi suprimido e se perdeu?
A nossa capacidade de entender a cardinalidade dos números nos ajuda a contar o tempo cronológico, mas não conseguimos atribuir a ordinariedade a ele da mesma forma que fazemos com os números. Eu sei quanto tempo é mil anos, um ano somado a um ano novecentas e noventa e nove vezes, mas não consigo ordenar um espaço tão grande de tempo pois ele só pode existir no momento em que constato sua própria existência. O número 2 vem depois do 1, o 3 depois do 2, vê-se nisso absoluta ordem, mas o tempo é fugaz e não se submete a essa regra, apesar de equivocadamente o nosso senso comum dizer o contrário.Um talento notável do tempo é a fluidez com que desliza por entre vários conceitos e significados mantendo sempre a coerência com o seu paradoxo de se estender desde e até a eternidade, mas existir apenas no presente. 
                                        “A vida é breve, a arte, longa.”          Hipócrates, Aforismos

A arte está organicamente ligada ao tempo de vida dos homens, é sua sombra e sua luz. Ela define o aspecto da figura distorcida que é o tempo relativo. Algo tão nobre por vezes age anonimamente, de forma indigente. Sou cristão e creio ser Deus o Verdadeiro Artista, Criador e Mestre, por isso me inclino a ver como prova de abstração do tempo linear e constante a afirmação de que ‘para Deus um dia é como mil anos e mil anos como um dia’.
Em meio a Floresta Amazônica se encontra uma das poucas tribos indígenas com traços primitivos que não foram ainda “contaminadas” com a imposição da cultura moderna, os mundurucus. A pertinência da citação deles nesse artigo diz respeito ao fato de que eles não possuem linguagem escrita e notação numérica, pouco uso teriam para isso pois eles só conseguem contar até cinco. Cientistas realizaram um estudo com um número razoável de indivíduos da tribo pedindo que eles desenhássem pontos em uma linha correspondendo a posição em que determinados números se localizam. Curiosamente os números menores apresentaram um espaço maior entre si do que os números maiores. A medida que aumentava o valor numérico o espaço entre eles diminuía. Essa distorção da cardinalidade é visível mandurucunão só entre os mundurucus como em nós mesmos, se pensarmos em números extremamente altos saberemos representá-los através de algarismos, mas, virtualmente não conseguiremos quantificar a difença entre 4.157.894.157.415.789.616 e 3.995.465.484.169.546.654. E se essa característica fosse transferida para a idéia de tempo? Nós assimilamos um espaço de tempo muito grande como, de fato, menor do que seria dentro dos padrões ordinários e lineares. Tal avanço abre espaço para a suposição de ser essa então, a forma universal como o tempo transcorre. Dentro desse contexto seria, portanto, perfeitamente possível ter um dia como mil anos e mil anos como um dia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Omissão continental em publicação espanhola

Tive em mâos o livro 'Arqueologia - Los yacimientos arqueológicos y los tesoros culturales más importantes del mundo', da editora espanhola Blume. O livro cujo título original 'The World Encyclopedia of Archaeology' foi escrito por vários colaboradores em todo o mundo sob a direção da Dra.Aedeen Cremin da Universidade Nacional Australiana, Camberra, Australia.
É uma publicação soberbamente ilustrada com fotografias de vários sítios arqueológicos de vários países, inclusive com mapas e ilustrações históricas. Tudo isso é ainda melhorado pelo formato grande, papel de alta qualidade e capa dura.
O texto aborda desde os princípios da arqueologia básica aos museus e técnicas de escavação.
Os capítulos se sucedem geográficamente começando pelos sítios africanos, europeus, asiáticos, americanos e, por fim australianos e oceânicos. E é aí que a omissão se torna mais evidente, pois ao chegar ao capítulo 'Europa' notei a presença da gruta de Lascaux entre outros sítios importantes, porém, faltou o maior achado recente, o já citado neste blog 'caverna de Chauvet', na França. O segundo esquecimento dos colaboradores é percebido ao folhear as páginas do capítulo 'Las Américas', onde são apresentadas as culturas indígenas primitivas nos Estados Unidos, na Mesoamérica, Chile, Peru, México, os artigos abrangem os maias, incas, astecas e olmecas. Todos de grande interesse, mas não foram incluídas as evidências de outras culturas indígenas ainda mais antigas e que aparentemente estiveram presentes em toda a costa leste sulamericana, planaltos e no interior da floresta amazônica, área essa pertencente ao continental Brasil.
No estado de Santa Catarina se encontram pinturas rupestres, inacreditavelmente se esqueceram da Serra da Capivara no Piauí, que abriga a maior concentração de sítios arqueológicos conhecida e o maior acervo de pinturas rupestres do continente americano, Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO), também foram deixados de lado os inexplicáveis geóglifos na floresta amazônica, no Acre, enfim, muitos outros dos quais não tenho conhecimento e com certeza omitirei.
Não digo que a publicação é desacreditável, muito pelo contrário, ela possui uma infinidade de conteúdo e abre portas para futuros aprofundamentos, além do mais, para leitores recentes de arqueologia é um gatilho para o deslumbramento com a complexidade da cultura mundial. O problema é a falta de, no mínimo, dois grandes e importantes elementos para o estudo da história, a caverna francesa e a serra brasileira, sem as quais a compreensão universal (se é que alcanção) fica comprometida.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sobre algebra

Ars-Jabr by Bruno Canto Carlos

Ars-Jabr, a photo by Bruno Canto Carlos on Flickr.
Ars-Jabr é um termo por mim construído a partir da junção da palavra latina 'ars' (arte) e al-jabr (restauração), palavra árabe usada pelo matemático Al-Kwuãrizmi para designar o seu método de resolução de problemas envolvendo variáveis,redução e restauração; anos depois o termo gerou a palavra álgebra. A minha intenção é expor o modo algébrico como criamos a arte. Reduzimos o tema de modo a simplificar o contexto, e então restauramos segundo a nossa concepção e significado.

Menina com Borboleta

Menina com Borboleta
Pintura realizada a partir de foto publicada em National Geographic Beleza Rara