O mais emblemático dogma universal a respeito do tempo é a impossibilidade de o retermos. O que é foi e não o será novamente. Tal constatação não é assim tão óbvia, diria o eclesiastes… mas é válida. Para o tempo cronológico pouco importa os eventos passados sob o seu sustento, ele manterá sua constância. Por outro lado, para cada evento existirá uma figura distorcida do tempo soberano, relativa ao próprio evento e suas experiências. Para alguém que fique parado olhando fixamente o decorrer dos segundos de um relógio, o tempo passará muito mais lentamente do que para uma outra pessoa, ocupada com muitos afazeres. Isso é óbvio, Einstein diria, pois o tempo é relativo. Tudo é relativo. Mas nesse caso eu estaria considerando a figura do tempo cronológico distorcido pelos eventos, e não o próprio; ou seriam ambos a mesma idéia?
Se tomarmos a relatividade do tempo como base para toda interpretação, o tempo de uma vida não seria corretamente descrito se o basearmos na concepção linear e constante do tempo cronológico. Pois houveram eventos que o distorceram. Quantos anos de fato foram vividos? E em quantos outros o tempo não foi suprimido e se perdeu?
A nossa capacidade de entender a cardinalidade dos números nos ajuda a contar o tempo cronológico, mas não conseguimos atribuir a ordinariedade a ele da mesma forma que fazemos com os números. Eu sei quanto tempo é mil anos, um ano somado a um ano novecentas e noventa e nove vezes, mas não consigo ordenar um espaço tão grande de tempo pois ele só pode existir no momento em que constato sua própria existência. O número 2 vem depois do 1, o 3 depois do 2, vê-se nisso absoluta ordem, mas o tempo é fugaz e não se submete a essa regra, apesar de equivocadamente o nosso senso comum dizer o contrário.Um talento notável do tempo é a fluidez com que desliza por entre vários conceitos e significados mantendo sempre a coerência com o seu paradoxo de se estender desde e até a eternidade, mas existir apenas no presente.
“A vida é breve, a arte, longa.” Hipócrates, Aforismos
A arte está organicamente ligada ao tempo de vida dos homens, é sua sombra e sua luz. Ela define o aspecto da figura distorcida que é o tempo relativo. Algo tão nobre por vezes age anonimamente, de forma indigente. Sou cristão e creio ser Deus o Verdadeiro Artista, Criador e Mestre, por isso me inclino a ver como prova de abstração do tempo linear e constante a afirmação de que ‘para Deus um dia é como mil anos e mil anos como um dia’.
Em meio a Floresta Amazônica se encontra uma das poucas tribos indígenas com traços primitivos que não foram ainda “contaminadas” com a imposição da cultura moderna, os mundurucus. A pertinência da citação deles nesse artigo diz respeito ao fato de que eles não possuem linguagem escrita e notação numérica, pouco uso teriam para isso pois eles só conseguem contar até cinco. Cientistas realizaram um estudo com um número razoável de indivíduos da tribo pedindo que eles desenhássem pontos em uma linha correspondendo a posição em que determinados números se localizam. Curiosamente os números menores apresentaram um espaço maior entre si do que os números maiores. A medida que aumentava o valor numérico o espaço entre eles diminuía. Essa distorção da cardinalidade é visível
não só entre os mundurucus como em nós mesmos, se pensarmos em números extremamente altos saberemos representá-los através de algarismos, mas, virtualmente não conseguiremos quantificar a difença entre 4.157.894.157.415.789.616 e 3.995.465.484.169.546.654. E se essa característica fosse transferida para a idéia de tempo? Nós assimilamos um espaço de tempo muito grande como, de fato, menor do que seria dentro dos padrões ordinários e lineares. Tal avanço abre espaço para a suposição de ser essa então, a forma universal como o tempo transcorre. Dentro desse contexto seria, portanto, perfeitamente possível ter um dia como mil anos e mil anos como um dia.
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