domingo, 29 de janeiro de 2012

O que há para se dizer sobre o tempo

 O mais emblemático dogma universal a respeito do tempo é a impossibilidade de o retermos. O que é foi e não o será novamente. Tal constatação não é assim tão óbvia, diria o eclesiastes… mas é válida. Para o tempo cronológico pouco importa os eventos passados sob o seu sustento, ele manterá sua constância. Por outro lado, para cada evento existirá uma figura distorcida do tempo soberano, relativa ao próprio evento e suas experiências. Para alguém que fique parado olhando fixamente o decorrer dos segundos de um relógio, o tempo passará muito mais lentamente do que para uma outra pessoa, ocupada com muitos afazeres. Isso é óbvio, Einstein diria, pois o tempo é relativo. Tudo é relativo. Mas nesse caso eu estaria considerando a figura do tempo cronológico distorcido pelos eventos, e não o próprio; ou seriam ambos a mesma idéia?
Se tomarmos a relatividade do tempo como base para toda interpretação, o tempo de uma vida não seria corretamente descrito se o basearmos na concepção linear e constante do tempo cronológico. Pois houveram eventos que o distorceram. Quantos anos de fato foram vividos? E em quantos outros o tempo não foi suprimido e se perdeu?
A nossa capacidade de entender a cardinalidade dos números nos ajuda a contar o tempo cronológico, mas não conseguimos atribuir a ordinariedade a ele da mesma forma que fazemos com os números. Eu sei quanto tempo é mil anos, um ano somado a um ano novecentas e noventa e nove vezes, mas não consigo ordenar um espaço tão grande de tempo pois ele só pode existir no momento em que constato sua própria existência. O número 2 vem depois do 1, o 3 depois do 2, vê-se nisso absoluta ordem, mas o tempo é fugaz e não se submete a essa regra, apesar de equivocadamente o nosso senso comum dizer o contrário.Um talento notável do tempo é a fluidez com que desliza por entre vários conceitos e significados mantendo sempre a coerência com o seu paradoxo de se estender desde e até a eternidade, mas existir apenas no presente. 
                                        “A vida é breve, a arte, longa.”          Hipócrates, Aforismos

A arte está organicamente ligada ao tempo de vida dos homens, é sua sombra e sua luz. Ela define o aspecto da figura distorcida que é o tempo relativo. Algo tão nobre por vezes age anonimamente, de forma indigente. Sou cristão e creio ser Deus o Verdadeiro Artista, Criador e Mestre, por isso me inclino a ver como prova de abstração do tempo linear e constante a afirmação de que ‘para Deus um dia é como mil anos e mil anos como um dia’.
Em meio a Floresta Amazônica se encontra uma das poucas tribos indígenas com traços primitivos que não foram ainda “contaminadas” com a imposição da cultura moderna, os mundurucus. A pertinência da citação deles nesse artigo diz respeito ao fato de que eles não possuem linguagem escrita e notação numérica, pouco uso teriam para isso pois eles só conseguem contar até cinco. Cientistas realizaram um estudo com um número razoável de indivíduos da tribo pedindo que eles desenhássem pontos em uma linha correspondendo a posição em que determinados números se localizam. Curiosamente os números menores apresentaram um espaço maior entre si do que os números maiores. A medida que aumentava o valor numérico o espaço entre eles diminuía. Essa distorção da cardinalidade é visível mandurucunão só entre os mundurucus como em nós mesmos, se pensarmos em números extremamente altos saberemos representá-los através de algarismos, mas, virtualmente não conseguiremos quantificar a difença entre 4.157.894.157.415.789.616 e 3.995.465.484.169.546.654. E se essa característica fosse transferida para a idéia de tempo? Nós assimilamos um espaço de tempo muito grande como, de fato, menor do que seria dentro dos padrões ordinários e lineares. Tal avanço abre espaço para a suposição de ser essa então, a forma universal como o tempo transcorre. Dentro desse contexto seria, portanto, perfeitamente possível ter um dia como mil anos e mil anos como um dia.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Omissão continental em publicação espanhola

Tive em mâos o livro 'Arqueologia - Los yacimientos arqueológicos y los tesoros culturales más importantes del mundo', da editora espanhola Blume. O livro cujo título original 'The World Encyclopedia of Archaeology' foi escrito por vários colaboradores em todo o mundo sob a direção da Dra.Aedeen Cremin da Universidade Nacional Australiana, Camberra, Australia.
É uma publicação soberbamente ilustrada com fotografias de vários sítios arqueológicos de vários países, inclusive com mapas e ilustrações históricas. Tudo isso é ainda melhorado pelo formato grande, papel de alta qualidade e capa dura.
O texto aborda desde os princípios da arqueologia básica aos museus e técnicas de escavação.
Os capítulos se sucedem geográficamente começando pelos sítios africanos, europeus, asiáticos, americanos e, por fim australianos e oceânicos. E é aí que a omissão se torna mais evidente, pois ao chegar ao capítulo 'Europa' notei a presença da gruta de Lascaux entre outros sítios importantes, porém, faltou o maior achado recente, o já citado neste blog 'caverna de Chauvet', na França. O segundo esquecimento dos colaboradores é percebido ao folhear as páginas do capítulo 'Las Américas', onde são apresentadas as culturas indígenas primitivas nos Estados Unidos, na Mesoamérica, Chile, Peru, México, os artigos abrangem os maias, incas, astecas e olmecas. Todos de grande interesse, mas não foram incluídas as evidências de outras culturas indígenas ainda mais antigas e que aparentemente estiveram presentes em toda a costa leste sulamericana, planaltos e no interior da floresta amazônica, área essa pertencente ao continental Brasil.
No estado de Santa Catarina se encontram pinturas rupestres, inacreditavelmente se esqueceram da Serra da Capivara no Piauí, que abriga a maior concentração de sítios arqueológicos conhecida e o maior acervo de pinturas rupestres do continente americano, Patrimônio Cultural da Humanidade (UNESCO), também foram deixados de lado os inexplicáveis geóglifos na floresta amazônica, no Acre, enfim, muitos outros dos quais não tenho conhecimento e com certeza omitirei.
Não digo que a publicação é desacreditável, muito pelo contrário, ela possui uma infinidade de conteúdo e abre portas para futuros aprofundamentos, além do mais, para leitores recentes de arqueologia é um gatilho para o deslumbramento com a complexidade da cultura mundial. O problema é a falta de, no mínimo, dois grandes e importantes elementos para o estudo da história, a caverna francesa e a serra brasileira, sem as quais a compreensão universal (se é que alcanção) fica comprometida.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sobre algebra

Ars-Jabr by Bruno Canto Carlos

Ars-Jabr, a photo by Bruno Canto Carlos on Flickr.
Ars-Jabr é um termo por mim construído a partir da junção da palavra latina 'ars' (arte) e al-jabr (restauração), palavra árabe usada pelo matemático Al-Kwuãrizmi para designar o seu método de resolução de problemas envolvendo variáveis,redução e restauração; anos depois o termo gerou a palavra álgebra. A minha intenção é expor o modo algébrico como criamos a arte. Reduzimos o tema de modo a simplificar o contexto, e então restauramos segundo a nossa concepção e significado.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ars-Jabr






 Recentemente, assisti ao documentário "The Cave of  Forgotten Dreams"( A Caverna dos Sonhos Esquecidos ), de Werner Herzog. O filme nos mostra o mais importante achado pre´-historico do século XX, a caverna de Chauvet, na França. As paredes da caverna exibem, entre lindas formações calcáreas de milhares de anos as pinturas rupestres mais belas e não menos antigas que já se descobriu. Cavalos, hienas, bisões, rinocerontes, mamutes e leões são representados com uma inteligência e sensibilidade artísticas impressionante. O que me cativou foi a percepção de que a força com que nossos sentidos são confrontados provém de formas familiares a nós, afinal conhecemos cavalos, leões e rinocerontes, e não é tão impressionante o fato de sabermos que eles existiam em tempos remotos assim como nós; porém, o  reconhecimento da forma primitiva da arte põe em evidência o quanto é recente e imaturo o nosso conceito de criatividade.( quero ser claro nesse ponto, digo 'o reconhecimento da forma primitiva da arte', e não o reconhecimento 'de uma forma primitiva de arte', pois o impulso criativo que levou os artistas de Chauvet a cobrir as paredes da caverna com pinturas de animais se estendeu até os nossos tempos, e isso já remonta a 30000 anos.)
Um aspecto vital para o apreciamento das pinturas de Chauvet é, a meu ver, a prévia constatação de que nós julgamos aqueles desenhos como arte, não há outra explicação, não podemos dizer que os artistas os fizeram para algum fim prático e banal... nossa cultura não concebe a hipótise de algo tão significativo e, no entanto, tão intuitivo ter passado sem a lapidação engenhosa do cerne criativo da alma humana. Aliás, é possível que tenham sido esses os primórdios da inteligência visual da qual fazemos uso a cada segundo que permanecemos de olhos abertos nos dias de hoje. Quando assistimos um desenho animado como "O Rei Leão", da Disney, temos leões, gnus, hienas, rinocerontes e elefantes relembrando um antepassado visual remoto. Nossa capacidade de entender uma imagem figurativa é basicamente o que nos faz admirar as pinturas de Chauvet... imagino o artista que pintou o painel dos cavalos, a meu ver a mais prima das obras primas, recostado na parede oposta da caverna, admirando seu trabalho concluído, sabendo que havia feito algo significativo, mas não sabendo o quão realmente significativo ele é. 
Se repassarmos os últimos cinco séculos, a nossa referência de 'beleza' sofreu tantas modificações estilísticas que hoje já não reconhecemos uma arte que seja puramente a retratação da beleza legítima; ela estaria sujeita a inclusão em uma ou outra vertente da literatura artística para que, só então, fosse julgada como a retratação, ou não, da beleza. No entanto, o que vemos em Chauvet é, e não há quem contradiga, belo. A naturalidade das pinturas, o desprendimento com o método e a capacidade, dado o contexto no qual se encontram, de transmitir ancestralidade, fazem delas as mais legítimas retratações da beleza artística de que o homem é capaz de fazer da natureza. Esse é um ponto importante... pois se a retratação do belo atingiu seu ápice em Chauvet, então o que a humanidade fez em trinta mil anos?
Vale ressaltar que há lacunas temporais entre a idade de algumas pinturas em Chauvet de até 5 mil anos ou mais. Isso é um fato impressionante pois para nós é inconcebível um intervalo tão grande entre a concretização e a reprodução de uma idéia. 
A idéia concretizada há 30000 anos esteve presente em todas as idéias posteriores e as demais reproduções tiveram algumas pequenas variações como, por exemplo, em uma parte no fundo da caverna, onde acredita-se era a antiga entrada, há um espaço na parede repleto de impressões da palma da mão de um homem (ou mulher) pré-histórico. Esse é o mais íntimo contato que conseguimos com nosso ancestral através de trezentos séculos e ele nos deixa uma nova experiência visual...assustadora e inquietante. Estaria ele também intrigado com a imagem de sua mão sendo reproduzida na pedra, e por esse motivo a imprimiu tantas vezes, ou foi conscientemente escolhendo o local e a quantidade? Estudos dizem que ele (ou ela) começou de baixo e foi se erguendo até imprimir as palmas mais altas... e há também outras impressões do mesmo autor em outros pontos da caverna, sendo possível até mesmo seguir o percurso do nosso ancestral. É possível que nesse momento tenha origem a idéia de identidade. A figura que vemos já não é a 'figura de um leão', ou 'a figura de quatro cavalos correndo', e sim a palma da mão de um homem, a real palma da mão de um homem que a imprimiu.


Menina com Borboleta

Menina com Borboleta
Pintura realizada a partir de foto publicada em National Geographic Beleza Rara