As analogias são de grande utilidade a qualquer um que se prestou a realizar uma explicação e se viu sem colocações suficientemente claras e objetivas. Talvez o seu uso desperte suspeita no ouvinte quanto a clareza e o domínio do assunto por parte do orador, pois este se viu incapaz de transmitir diretamente um pensamento, fazendo uso do pensamento alheio através de um artifício que, geralmente, recorre a memória visual do ouvinte, forçando-o a entender o que foi dito. Por outro lado, o uso pontual e bem trabalhado de uma analogia pode vir a ser o modo mais bem-sucedido de se fixar uma ideia.
Para que se consiga atingir o objetivo em uma analogia deve-se usar elementos que apresentem constância e que estejam disponíveis ao maior número e sortimento de saberes, por isso, é comum o emprego de elementos da natureza...tal como em provérbios, metáforas e ditos populares de uso comum. Contudo, uma mensagem objetiva pode vir a se apresentar propositadamente em uma forma indireta e subliminar por meio de uma analogia, para que somente uma fração de um público receba com clareza o teor do que foi dito; é o que se vê nas parábolas de Jesus, que ao discursar para uma multidão citou a respeito dos ímpios: 'ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis'; e sobre seus discípulos: ' Mas bem-aventurados os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.' (Mateus 13:14, 16)
O tema do presente artigo está ligado a duas analogias presentes no título do post.
Procurei fazer uma alusão a preocupação quase patológica do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) com a identidade linguística dos maiores tratados da filosofia tradicional, a grande maioria em latim ou grego. Schopenhauer protestava veementemente contra 'uma onda de profanação das obras clássicas' que eram precariamente traduzidas para o alemão, e, como se não bastasse, esses 'escrevinhadores imbecis, com o intuito de dar maior valor a suas próprias obras medíocres as publicam em latim'. E cá estou eu, com um título em latim...
A outra analogia está explicita no próprio significado do título:
'Obra do corpo, obra do pensamento'.

"Quanto menos inteligente é um homem, menos misteriosa lhe parece a sua própria existência."
Arthur Shopenhauer
O estímulo natural a sobrevivência do corpo promove a existência de um ciclo estável que, em notáveis aspectos, o faz similar ao menos apercebido ciclo do pensamento.
O ato vital de se alimentar é paralelo ao ato de se adquirir conhecimento, seja ele qual for, pois da mesma forma que se admite uma colossal diversidade de alimentos, também é vasto o campo dos saberes humanos. A forma pelo qual o alimento é ingerido ilustra bem a causalidade da natureza, sendo que, ainda na boca o afã de mastigar, triturar e processar a comida para depois empurrá-la garganta abaixo é gratuitamente amenizado pela sensação de prazer oriunda do estímulo do sabor; assemelhando tal evento ao ato de se ler um livro onde o entendimento requer atenção e conhecimentos prévios mas o tema da leitura se mostra instigante e proporciona prazer ao leitor, que prossegue até o fim. Tal mecanismo natural ajuda o corpo a captar o alimento, esse corpo estranho que em breve será assimilado, mas não é o principal responsável pelo sucesso da alimentação. Sem o processo de digestão o organismo não extrai nutrientes do alimento, que é o objetivo do esforço, assim como a obtenção de experiência ou conhecimento sem a reflexão não traz nenhum benefício ao pensamento próprio. A digestão é análoga a reflexão mas difere em um ponto crucial da minha analogia; a primeira é muito mais complexa e fatigante que a mastigação mas ocorre involuntariamente no organismo; a segunda é igualmente extenuante mas só existe se for conscientemente construída, selecionando cada elemento ingerido e dispondo conforme a necessidade do intelecto. Schopenhauer fez a seguinte colocação a respeito da aquisição de conhecimento através da experiência: 'Quando a experiência se vangloria de que somente ela, por meio de suas descobertas, fez progredir o saber humano, é como se a boca quisesse se gabar por sustentar sozinha a existência do corpo.'
A respeito do saber (não do pensar) acrescento, ainda, outros fatores a minha comparação. Um corpo saudável sente fome, se alimenta até a saciedade, digere o alimento e elimina o que não tem para si nenhum proveito. Porém, existem estados anormais de funcionamento do sistema em que o organismo não realiza o processo até o objetivo, gerando corpos subnutridos e impotentes. O mesmo ocorre no intelecto e é ainda mais perceptível ao compará-lo aos distúrbios alimentares como a anorexia nervosa ou a obesidade mórbida. No primeiro o paciente se nega a comer pois se vê muito bem provido e do que se alimenta, por mais pequena que for a porção, é para o seu estado psicológico e para sua auto-imagem um excesso, já na segunda, o corpo se alimenta compulsivamente mas não realiza o processo como um todo, acumulando matéria que, ao invés de ser convertida em nutrientes acaba por ser prejudicial ao próprio funcionamento do organismo. Aquele que se vê como proprietário de muitos saberes e que, a qualquer novidade que lhe for apresentada por alguém que julgue menos capaz, rapidamente virar o rosto rejeitando-o como conhecimento inútil, possui um distúrbio semelhante ao do anoréxico que, ao se olhar no espelho não vê necessidade de comer mais do que já come, mesmo que os seus ossos estejam visíveis, assim como outros sinais de subnutrição. E, também, aquele que avidamente extrai conhecimento de várias fontes, se gaba de ler compulsivamente, podendo citar todos os autores e, por vezes, reproduz histórias e pensamentos que nunca teve, mas foram aprendidos e copiados, pois ele próprio não conseguiu tempo em meio ao seu vaidoso ofício de conhecer todas as letras impressas, se faz portador de um comportamento análogo ao obeso mórbido, que procura a saciedade, mas não a encontra e o acúmulo do que ingere lhe causa terrível desconforto. Em todos estes casos, o efeito de tais distúrbios é a inércia, a imobilidade... no intelecto é a impossibilidade de se extrair o fruto do pensamento próprio, um pela falta de matéria prima, que é o conhecimento, e outro pelo excesso da mesma, sobrecarregando e ocupando todo o esforço e o objetivo.
Alguns filósofos contemporâneos acreditam que no atual modelo de sociedade a reflexão deixou de existir, dada a maneira como o consumo, o trabalho e até mesmo a maioria das artes requerem uma reação quase instantânea do indivíduo. Ausência de reflexão acarreta em ausência de pensamento próprio e, se assim for, o gênio será algo muito mais raro do que se faz ouvir, e o vulgo estará no ápice da sua produtividade.

Uau meu amigo...muito interessante seu blog...gostei, continue assim pois talento você tem, alias sempre foi de talento.
ResponderExcluirsuas imagens são interessantes nos leva a imaginar um monte de coisas, mas que no fim tem grande sentido.Parabéns.
forte abraço.