domingo, 1 de janeiro de 2012

Ars-Jabr






 Recentemente, assisti ao documentário "The Cave of  Forgotten Dreams"( A Caverna dos Sonhos Esquecidos ), de Werner Herzog. O filme nos mostra o mais importante achado pre´-historico do século XX, a caverna de Chauvet, na França. As paredes da caverna exibem, entre lindas formações calcáreas de milhares de anos as pinturas rupestres mais belas e não menos antigas que já se descobriu. Cavalos, hienas, bisões, rinocerontes, mamutes e leões são representados com uma inteligência e sensibilidade artísticas impressionante. O que me cativou foi a percepção de que a força com que nossos sentidos são confrontados provém de formas familiares a nós, afinal conhecemos cavalos, leões e rinocerontes, e não é tão impressionante o fato de sabermos que eles existiam em tempos remotos assim como nós; porém, o  reconhecimento da forma primitiva da arte põe em evidência o quanto é recente e imaturo o nosso conceito de criatividade.( quero ser claro nesse ponto, digo 'o reconhecimento da forma primitiva da arte', e não o reconhecimento 'de uma forma primitiva de arte', pois o impulso criativo que levou os artistas de Chauvet a cobrir as paredes da caverna com pinturas de animais se estendeu até os nossos tempos, e isso já remonta a 30000 anos.)
Um aspecto vital para o apreciamento das pinturas de Chauvet é, a meu ver, a prévia constatação de que nós julgamos aqueles desenhos como arte, não há outra explicação, não podemos dizer que os artistas os fizeram para algum fim prático e banal... nossa cultura não concebe a hipótise de algo tão significativo e, no entanto, tão intuitivo ter passado sem a lapidação engenhosa do cerne criativo da alma humana. Aliás, é possível que tenham sido esses os primórdios da inteligência visual da qual fazemos uso a cada segundo que permanecemos de olhos abertos nos dias de hoje. Quando assistimos um desenho animado como "O Rei Leão", da Disney, temos leões, gnus, hienas, rinocerontes e elefantes relembrando um antepassado visual remoto. Nossa capacidade de entender uma imagem figurativa é basicamente o que nos faz admirar as pinturas de Chauvet... imagino o artista que pintou o painel dos cavalos, a meu ver a mais prima das obras primas, recostado na parede oposta da caverna, admirando seu trabalho concluído, sabendo que havia feito algo significativo, mas não sabendo o quão realmente significativo ele é. 
Se repassarmos os últimos cinco séculos, a nossa referência de 'beleza' sofreu tantas modificações estilísticas que hoje já não reconhecemos uma arte que seja puramente a retratação da beleza legítima; ela estaria sujeita a inclusão em uma ou outra vertente da literatura artística para que, só então, fosse julgada como a retratação, ou não, da beleza. No entanto, o que vemos em Chauvet é, e não há quem contradiga, belo. A naturalidade das pinturas, o desprendimento com o método e a capacidade, dado o contexto no qual se encontram, de transmitir ancestralidade, fazem delas as mais legítimas retratações da beleza artística de que o homem é capaz de fazer da natureza. Esse é um ponto importante... pois se a retratação do belo atingiu seu ápice em Chauvet, então o que a humanidade fez em trinta mil anos?
Vale ressaltar que há lacunas temporais entre a idade de algumas pinturas em Chauvet de até 5 mil anos ou mais. Isso é um fato impressionante pois para nós é inconcebível um intervalo tão grande entre a concretização e a reprodução de uma idéia. 
A idéia concretizada há 30000 anos esteve presente em todas as idéias posteriores e as demais reproduções tiveram algumas pequenas variações como, por exemplo, em uma parte no fundo da caverna, onde acredita-se era a antiga entrada, há um espaço na parede repleto de impressões da palma da mão de um homem (ou mulher) pré-histórico. Esse é o mais íntimo contato que conseguimos com nosso ancestral através de trezentos séculos e ele nos deixa uma nova experiência visual...assustadora e inquietante. Estaria ele também intrigado com a imagem de sua mão sendo reproduzida na pedra, e por esse motivo a imprimiu tantas vezes, ou foi conscientemente escolhendo o local e a quantidade? Estudos dizem que ele (ou ela) começou de baixo e foi se erguendo até imprimir as palmas mais altas... e há também outras impressões do mesmo autor em outros pontos da caverna, sendo possível até mesmo seguir o percurso do nosso ancestral. É possível que nesse momento tenha origem a idéia de identidade. A figura que vemos já não é a 'figura de um leão', ou 'a figura de quatro cavalos correndo', e sim a palma da mão de um homem, a real palma da mão de um homem que a imprimiu.


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Menina com Borboleta

Menina com Borboleta
Pintura realizada a partir de foto publicada em National Geographic Beleza Rara